A consciência do tempo

Hamlet – Esse camarada não tem consciência do trabalho que faz, cantando enquanto abre uma sepultura?
Horácio – O costume transforma isso em coisa natural.
Hamlet – É mesmo. A mão que não trabalha tem o tato mais sensível.
Hamlet, Ato V

A plasticidade da mente conduz a percepção. Uma hora, um minuto, um dia inteiro, são escalas variáveis de uma mesma experiência. Enquanto o amanhecer pode ser inebriante, dadas as circunstâncias, o amanhecer diário do cotidiano geralmente é resumido a uma sequência de ações esquemáticas que evaporam tão logo sejam realizadas. O sujeito coloca-se estrategicamente afastado de suas ações porque o processo, no momento de ir ao trabalho, por exemplo, só importa se nos leva o quanto antes ao nosso objetivo. O esvaziamento da consciência, durante as tarefas do cotidiano – banho, vestir-se, alimentar-se, sair, são uma exigência à nossa sobrevivência. O sujeito que se encantaria com a textura de uma fatia de pão, ou com a brisa que o surpreendeu no momento de fechar a porta do apartamento, chegaria atrasado, muito provavelmente, ao trabalho, e isto seria fatal para ele. Não raro os dias ou o ano passam depressa, como ouvimos no dia-a-dia, e duram uma eternidade quando viajamos a uma cidade do interior, não porque necessariamente o tempo andasse mais devagar, mas porque o grau de atenção, as novidades, provocam a nossa percepção e temos registros mais detalhados. Um ou dois dias em um lugar novo podem significar mais que toda uma semana de tarefas desgastadas pela rotina. O maravilhar-se, o encantar-se, estão fora de nossa agenda mental de sobrevivência. Por outro lado, nossa percepção do tempo é variável, ainda que achatada pela repetição. O momento iluminado deve ocorrer, e é esperado que ele ocorra, porque sem variação, sem mudança, não há consciência, e nós, humanos, temos na consciência a nossa alma. Aldous Huxley, sob o efeito de mescalina, teve na experiência a potencialização da percepção: o vaso de flores, a cadeira do escritório, para ficarmos nesses dois exemplos, extrapolaram os limites cronológicos do evento, isto é, sua duração e importância abriram uma fenda no tempo e o ampliaram. Huxley descreve a percepção do vaso de flores como – aquilo que Adão vira no dia de sua criação – o milagre inteiro desabrochar da existência, em toda a sua nudez. E a impressão de arrebatamento diante de uma cadeira do seu cotidiano – quão miraculosa a sua tubularidade, quão sobrenatural seu suave polimento. Consumi vários minutos – ou foram vários séculos? Não apenas admirando aqueles pés de bambu, mas em verdade sendo-os… Mas o extraordinário, independente dos famosos estados alterados de consciência, ocorre no cotidiano como uma cunha inserida no tempo, o qual deverá seguir conosco quem sabe pela vida inteira. Penso que cada fração de nossa existência tem o seu valor como arcabouço indispensável à sustentação do momento luminoso.

Ricardo Carranza

Ricardo Carranza

 

Ricardo Carranza é mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2000, diretor da editora G&C Arquitectônica, escritor e professor da Universidade Paulista.

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