A casa da floresta

Nesta vista vê-se a face inferior da cobertura de fibra vegetal, com perfis tubulares da trama de arcos e terças horizontais e os contraventamentos de cabos de aço em X, o volume elevado da casa com vedações de vidro, vigamento da grelha de piso e avanços das placas de vidro temperado transparentes da laje grelha de cobertura, e no topo veem-se os tirantes e contraventamento dos pilares centrais. Foto: Gal Oppido

Nesta vista vê-se a face inferior da cobertura de fibra vegetal, com perfis tubulares da trama de arcos e terças horizontais e os contraventamentos de cabos de aço em X, o volume elevado da casa com vedações de vidro, vigamento da grelha de piso e avanços das placas de vidro temperado transparentes da laje grelha de cobertura, e no topo veem-se os tirantes e contraventamento dos pilares centrais.
Foto: Gal Oppido

Edite Galote Carranza e Ricardo Carranza

… o homem é à medida que habita. Heidegger

            Para o projeto da residência em Pouso Alto os arquitetos Newton Massafumi e Tânia Regina Parma do escritório Gesto Arquitetura adotaram como conceito que “as casas devem ser como pássaros pousados na Mata Atlântica”. Entretanto o pássaro em questão é especial por ser antes uma coisa capaz de transformar um recanto da floresta em lugar na medida em que o torna habitável através de um limite. A postura dos arquitetos, que se insere em um contexto mais amplo de sustentabilidade, constrói o lugar fazendo uso de tecnologia de pré-fabricação e técnicas artesanais.

Residência Pouso Alto, arquitetos Newton Massafumi e Tânia Regina Parma do escritório Gesto Arquitetura Foto: Gal Oppido

Residência Pouso Alto, arquitetos Newton Massafumi e Tânia Regina Parma do escritório Gesto Arquitetura
Foto: Gal Oppido

A casa eleva-se do solo por oito pilares centrais de perfil H e seção variável. A estrutura sustenta duas grelhas de vigas metálicas tipo vagão, isto é, vigas tubulares e cabos de aço solidarizados, que correspondem ao piso térreo e laje de cobertura. Os pilares são contraventados na porção superior por tirantes de aço. Balanços laterais simétricos foram resolvidos com tirantes de aço ancorados às vigas de borda da grelha e ao topo dos pilares.

Neste corte veem-se os arcos e terças horizontais da cobertura de fibra vegetal, o bloco da casa estruturado pelos pilares centrais associado a tirantes e contraventado mediante cabos de aço na extremidade superior, e as grelhas metálicas das lajes com vigas vagão.

estrutura em árvore de madeira pequiá reforçada com chapa e parafusos de aço passantes deixados aparentes.  Foto: Gesto Arquitetura

estrutura em árvore de madeira pequiá reforçada com chapa e parafusos de aço passantes deixados aparentes.
Foto: Gesto Arquitetura

A cobertura, de fibra de piaçaba trançada sobre ripas de madeira, é sustentada por uma trama de perfis tubulares de aço composta de arcos e terças. Estes elementos estruturais são contraventados com tirantes de aço cruzados e soldados à extremidade superior dos pilares. Quanto aos pequenos detalhes, as terças foram projetadas com ressaltos de aço em módulo coordenado com o espaçamento das ripas de madeira.

A interligação dos espaços internos e externos foi resolvida por uma passarela projetada em madeira certificada de reaproveitamento, tipo aroeira, com largura de 3.80m e altura variável em torno de 4.00m, apoiada em pilares centrais espaçados a cada 6.30m. Para criar uma estrutura leve Yopanan concebeu pilares ramificados. A determinação da inclinação dos galhos do pilar árvore foi obtida mediante ensaio em que galhos e tronco foram simulados com barbantes untados com cola branca.  Nessa condição as barras estabilizam-se numa configuração de equilíbrio. O resultado é o caminho ótimo das forças nas barras. O modelo é então fotografado e desenhado. Outro desafio foi resolver a ligação entre as diversas barras que compõem a árvore. A solução de chapas metálicas embutidas nas barras de madeira e parafusos mantidos aparentes, buscou evidenciar que no construir as coisas consagram-se quando são o que parecem ser.

Modelo feito com barbantes ligados à trama estrutural da passarela e tensionados por um peso que define o caminho ótimo das forças nas barras. Foto: Gesto Arquitetura

Modelo feito com barbantes ligados à trama estrutural da passarela e tensionados por um peso que define o caminho ótimo das forças nas barras.
Foto: Gesto Arquitetura

Vedações verticais e planos horizontais sobre a grelha metálica de cobertura são de vidro temperado transparente e foram pensadas considerando-se a total integração entre homem e natureza.

Construir é uma consequência do habitar. Aço, madeira, vidro, seriam apenas peças empilhadas se não estivessem situadas na forma do habitar. Construir o lugar é pensar relações espaciais através de uma porta, uma janela, porque existe na origem do homem a necessidade de um limite. Tornar habitável é a força integradora que propicia à coisa esse limite. Pertencer ao lugar é sentir-se em casa, é perceber-se íntegro integrando-se. A casa da floresta é como uma ponte que dá sentido às margens e livre curso ao rio.

Junção dos cabos de aço de contraventamento dos pilares na sua extremidade superior. Desenho: Edite Galote Carranza

Junção dos cabos de aço de contraventamento dos pilares na sua extremidade superior.
Desenho: Edite Galote Carranza

Base do pilar metálico e ancoragem à fundação de concreto armado. Desenho: Edite Galote Carranza

Base do pilar metálico e ancoragem à fundação de concreto armado.
Desenho: Edite Galote Carranza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DADOS TÉCNICOS
Área construída da casa principal: 237,16 m2
Área construída da casa do caseiro e serviços: 181,60 m2
Área de lazer: 184,45 m2
Piscina: 176,38 m2
Passarelas, rampas e escadas: 242,45 m2

 

FICHA TÉCNICA

Escritório Gesto Arquitetura
Arquitetos Newton Massafumi e Tânia Regina Parma
Colaborador: Wilson Pombeiro
Equipe: Marcio Tanaka, Paula A. Frasca, Paulo Rogério Silva
Cálculo estrutural: Yopanan C. P. Rebello
Construção: Construtora Porfírio e Plaza
Execução da estrutura metálica: Perlex
Proteção da estrutura metálica: Alfredo Nogueira – Pint Tecnologia de Pintura
Execução das passarelas: José Pilon e Eduardo Albuquerque
Execução das peças metálicas das passarelas: Carlos Augusto – Staferro
Paisagismo: Gil Fialho

AUTORES: 

Edite Galote Carranza é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004, doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2013 com a tese “Arquitetura Alternativa: 1956-1979”; diretora da editora G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura+arte ISSN 1808-1142; professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

Ricardo Carranza é mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2000, diretor da editora G&C Arquitectônica, escritor, professor da Universidade Paulista, professor co-autor do programa de pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

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