Arquitetura, contracultura e sustentabiliade: Parte3

Edite Galote Rodrigues Carranza

A partir dos anos de 1960, uma nova forma de pensar a arquitetura surge à medida que as críticas ao Movimento  Moderno se multiplicam. Vários autores foram responsáveis por esses questionamentos, tais como: Kevin Lynch com The image of the city, em 1960; Giulio Carlo Argan com Progetto e destino, em 1964; Aldo Rossi com  Larchitecttura della cittá, em 1966; Robert Venturi com Complexity and Contradiction in Architecture, em 1966; Manfredo Tafuri com Teoria e storia dell’architettura, em 1968, entre outros.

A onda de questionamentos ao Movimento Moderno coincide com o período de grandes mudanças sociais que se originaram no movimento de Contracultura, definido na seção anterior. A Contracultura, e seus desdobramentos de pensamento, lançaram um caminho alternativo ao mundo “Tecnocrático Moderno” de então. Um caminho de maior liberdade e busca da valorização das individualidades, e neste caminho não havia mais espaço para um “Estilo Internacional” na arquitetura.

O geógrafo David Harvey estabelece o ponto de contato entre o movimento de Contracultura e o período de questionamento do Movimento Moderno amplo, em suas palavras:

[...]Foi nesse contexto em que os vários movimentos contraculturais e antimodernistas dos anos 60 apareceram. Antagônicas às qualidades opressivas da racionalidade técnico-burocrática de base científica manifesta nas formas corporativas  e estatais monopolíticas e em outras formas de poder institucionalizado (incluindo as dos partidos políticos e sindicais burocratizados), as contraculturas exploram os domínios da auto-realização individualizada por meio de uma política distintivamente “neo-esquerdista” da incorporação de gestos antiautoritários e de hábitos iconoclastas (na música, no vestuário, na linguagem e no estilo de vida) e da crítica da vida cotidiana. Centrado nas universidades, institutos de arte e nas margens culturais da vida na cidade grande, o movimento se espraiou para as ruas e culminou numa vasta onda de rebelião que chegou ao auge em Chicago, Paris, Praga, Cidade do \México, Madri, Tóquio e Berlim na turbulência global de 1968. Foi quase como se as pretensões universais de modernidade tivessem, quando combinadas como o capitalismo liberal e o imperialismo, tido um sucesso tão grande que fornecessem um fundamento material e político para um movimento de resistência cosmopolita, transnacional e, portanto, global, à hegemonia de alta cultura modernista.” 1

O crítico literário e estudioso da cultura contemporânea Fredric Jamenson argumenta que, naquele momento histórico, havia um momento de “libertação universal” onde “tudo era possível”, ou seja, uma libertação de energias sociais e uma “prodigiosa e escapada de forças não teorizadas”. No caso, ele se refere aos movimentos contraculturais em prol das minorias étnicas, negros, ecologismo, pacifismo, feminismo e movimentos estudantis como forças “recém liberadas” nos anos 60. Em suas palavras:

“A década de 1960 é, em vários aspectos, o principal período de transição; um período no qual a nova ordem internacional (neocolonialismo, a Revolução Verde, a disseminação dos computadores e das informações eletrônicas) é, ao mesmo tempo, instaurada e abalada, tanto por suas contradições internas quanto pela resistência externa.” 2

Ainda segundo análise de Jameson, as novas formas de “reações específicas contra as formas estabelecidas do alto modernismo”, abrangem diversas áreas culturais – literatura, cinema, artes plásticas, no caso da arquitetura é uma reação contra o Estilo Internacional, em suas palavras:

“(…) na década de 1960, surgiu da reação contra uma poesia modernista acadêmica, irônica e complexa; a reação contra a arquitetura moderna, em particular contra as construções monumentais do Internacional Style;(…) 3

Para compreensão daquela época, Jameson lança mais uma última peça naquele “quebra-cabeça” denominada “a morte do sujeito”, ou seja, o fim do individualismo, da identificação do estilo pessoal, particular e inconfundível, da estética modernista que segundo ele está “morta”. O mesmo ponto de vista é abordado por Stuart Hall, que analisa a década de 1960 como sendo o período de transformação do sujeito. Hall analisa que a partir da década de 1960, o sujeito sofre um processo denominado “descentramento”, cuja origem possui quatro origens. O primeiro “descentramento”, segundo Hall,  refere-se às tradições do pensamento marxista, e a influências de seus novos intérpretes de Marx a partir da década de 1960, como o filósofo Herbert Marcuse por exemplo.  O segundo descentramento refere-se ao descobrimento do inconsciente por Freud . O terceiro “descentramento”  refere-se a lingüística estrutural de Ferdinand Saussure, na qual a língua é um “sistema social e não individual”. Por último o quatro descentramento, que se refere aos movimentos contraculturais, que segundo ele é o grande marco da “modernidade tardia” . Ele destaca, ainda, o papel do feminismo neste processo, em suas palavras:

“(…) O feminismo faz parte daquele grupo de “novos movimentos sociais”, que emergiram durante os anos sessenta ( o grande marco da modernidade tardia) juntamente com as revoltas estudantis, os movimentos juvenis contraculturais e antibelicistas, as lutas pelos direitos civis, os movimentos pela paz e tudo aquilo que está associado com “1968”. O que é importante reter sobre esse momento histórico é que: -Esses movimentos se opunham tanto à política liberal capitalista do Ocidente quanto à política “estalinista” do Oriente.-eles afirmavam tanto as dimensões “subjetivas”quanto as dimensões “objetivas” da política.-eles suspeitavam de todas as formas burocráticas de organização e favoreciam a espontaneidade e os atos de vontade política.-como argumentado anteriormente, todos esses movimentos tinham uma ênfase e uma forma cultura fortes. Eles abraçaram o “teatro” da revolução.-Eles refletiam o enfraquecimento ou o fim da classe política e das organizações políticas de massa com ela associadas, bem como sua fragmentação em vários e separados movimentos sociais.-Cada movimento apelava para a identidade social de seus sustentadores. Assim, o feminismo apelava às mulheres, a política sexual aos gays e lésbicas, as lutas raciais aos negros, o movimento antibelicista aos pacifistas, e assim por diante. Isso constituiu o nascimento histórico do que veio a ser conhecido como a política de identidade uma identidade para cada movimento. 4

No contexto da arquitetura, a principal contribuição do movimento de Contracultura foi a liberdade de questionamento que abriu um novo caminho para analisar o Movimento Moderno, à medida que surge um sentimento “contramoderno”, também denominado, na época, também como “crise do modernismo”.

Este novo caminho de pensar a arquitetura foi definido pelo crítico norte americano Charles Jenks, quando publicou sua tese de doutoramento em 1973, com o título Modern Movementes in Architecture, um texto polêmico a favor do pluralismo e contra um Modernismo restrito. Segundo sua definição, a nova arquitetura que surgiu nos anos sessenta poderia ser definida como pós-moderna:

“[...]A arquitetura pós-moderna e neo-moderna (ou moderna recente) surgiu nos anos sessenta como reação ‘arquitetura moderna’ e a alguns dos seus falhanços mais notórios. Entre eles, um falhanço em gerar um desenvolvimento urbano convincente, um falhanço também em comunicar e efetivamente. Por isso, a arquitetura pós-moderna desenvolveu uma morfologia de base urbana conhecida como contextualismo, bem como uma linguagem arquitectónica mais rica baseada na metáfora, na imagística histórica e na imaginação.”

“Pós-modernistas são os arquitetos que evoluíram a partir dos movimentos anteriores porque se deram conta do caráter inadequado do Modernismo, como ideologia e também como linguagem. O modernismo não conseguiu transformar a sociedade numa direção positiva ou qualquer outra  (excepto em casos raros) e a principal linguagem, o Estilo Internacional, estava praticamente exausta nos anos sessenta, perdendo toda a sua riqueza [...] 5

Fredric Jameson opina sobre a afirmação de Charles Jenks sobre o surgimento da arquitetura nova, pós-moderna e que esta se distingue da anterior, do alto modernismo, sua prioridades populistas, em suas palavras:

“No que tange ao surgimento do novo, contudo, a afirmação de Jenks de que a arquitetura pós-moderna se ditingue daquela do alto modernismo por suas prioridades populistas poder servir de ponto de partida para uma discução um pouco mais geral. O que é indicado, no contexto especificamente arquitetônicos, é que, equanto o espaço, agora mais clássico, do alto modernismo de um Corbusier ou de Wright tentava diferenciar-se radicalmente da decadente malha urbana na que ele surgia –sendo as suas formas, portanto, dependentes de um ato de disjunção radical de seu contexto espacial(drástica separação do chão pelo grande pilotis, savaguardando o Novum do novo espaço)-, a construção pós-modernista, ao contrário celebra a sua inserção na malha heterogênea da área comercial e da paisagem de motéis e fast-food da cidade americana pós-vias expressas.(…) 6

Outra influência marcante do período foi o avanço tecnológico que representou a conquista espacial. Josep Maria Montaner afirma que esta influência está presente nas novas tendências arquitetônicas que surgem dos países industrialmente mais avançados, como Grã Bretanha, Alemanha, Estados Unidos e Japão, nos anos de 1960.

Um exemplo dessa afirmação de Montanher é atuação do Archigram, um grupo que surge no meio estudantil britânico com propostas arquitetônicas radicais. O Archigram liderado pelo arquiteto Peter Cook, publicou suas idéias, pela primeira vez, na revista homônima, Achigram, de 1961. O grupo que tinha como membros os arquitetos Dennis Crompton, Warren Chalk, David Greene, Ron Herron, Cedric Price e Michael Webb, seguia a linha de pensamento do norte americano Richard Buckminster Füller , segundo análise de Montaner:

“Las propuestas de Archigram constituyen uma curiosa sintesis entre la cultura del ‘pop’ inglês y la assimilación optimista de los progresos tecnológicos; una irónica alianza entre las técnicas comunicaciionales y las utopias tecnocráticas. Pero al mismo tiempo significan la continuidade de propuestas radicales de innovación tecnológica como planteada desde finales de los años veinte por Richard Buckminster Fuller (1895-1983)”. 7

Ainda segundo análise de Montaner, os projetos teóricos do Archigram, podem ser considerados como “metáforas visuais” . Propostas como o Centro do Pecado, de Michael Webb, de 1962; Plug-in City, de Peter Cook, de 1964;  Walking Cities, de Ron Herron, de 1964 e  Potteries Thinkbelt, de Cedric Price, 1966  são conhecidos mundialmente, nos anos de 1963 a 1965.

Os projetos do Archigram eram criativos porém descompromissados com a realidade, não havia a preocupação, por exemplo, com as conseqüências ecológicas ou sociais de suas proposições e sua possível realização, segundo análise de Kenneth Frampton:

“[...] O compromisso subseqüente do Archigram com uma abordagem infra-estrutural, leve e high-tech (o tipo de indeterminação implícita na obra de Fuller e ainda mais evidente em L’Architecture mobile [a Arquitetura móvel] de Yona Friedman, 1958) levou o grupo, de modo um tanto paradoxal, a entregar-se a formas irônicas de ficção científica, em vez de projetar soluções que fossem ou realmente indeterminadas, ou passíveis de serem realizadas e apropriadas pela sociedade.”

[...] o Archigram não via motivo para preocupar-se com as conseqüências sociais e ecológicas de suas diversas propostas megaestruturais, das quais a Plug-in City de Peter Cook (1964) foi um exemplo típico. Da mesma maneira, em sua obsessão pelas cápsulas suspensas da era espacial, Dennis Crompton, Michael Webb, Warren Chalk e David Greene são se sentiam obrigados a explicar por que alguém optaria por viver num dispositivo mecânico tão caro e sofisticado, enfrentando, ao mesmo tempo, uma existência num espaço tão brutalmente exíguo.” 8

Contemporâneo ao Archigran, o grupo holandês Provo lançaram propostas curiosas para a arquitetura e o urbanismo.  O Provo, cujo nome deriva de uma holandesa para provocação, foi formado por jovens de influência anarquista e contracultural, que se auto-definiram como:

“PROVO é alguma coisa contra o capitalismo, o comunismo, o fascismo, a burguesia, o militarismo, o profissionalismo, o dogmatismo e o autoritarismo.” 9

O Provo realizou diversas manifestações públicas – happenings, a fim de buscar o equilíbrio entre o místico, o artístico e a contestação política . Com humor e deboche suas manifestações imobilizaram as autoridades holandesas, que não sabendo como lidar com os jovens, partiram para a repressão violenta e sistemática.  Em resposta a repressão policial, o grupo atuou de forma pacífica e bem humorada, lançando manifestos denominados “Planos”.

O primeiro deles, que se tornou símbolo do grupo, foi o “Plano bicicletas brancas” cuja idéia era espalhar, pela cidade de Amsterdam, bicicletas pintadas de branco, que teriam uso comunitário e gratuito.  A polícia recolheu todas as biclicletas e foi acusada pelo grupo de furto.  O “Plano bicicletas brancas” foi um manifesto contra as “caixas de ostentação de status” (automóvel), que produziam poluição e acidentes fatais, o Provo defendia que o centro de Amsterdam fosse fechado definitivamente ao tráfego de veículos.

Para o Provo, o termo “branco” adquiriu uma conotação de pureza e ação contra a poluição e outros problemas urbanos. Assim, o termo branco foi utilizado para todos os planos subseqüentes, a saber: “Plano chaminés Brancas”, um manifesto contra a poluição da cidade, “Plano Mulheres Brancas” de cunho feminista e o “Plano Moradias Brancas”, do arquiteto Hans Niemeyer, que seria um “freio à especulação imobiliária”, cujo objetivo seria a revitalização do centro histórico de Amsterdam  a partir da  mudança de uso dos prédios de escritórios para sua “função original de habitação”,  pois desse modo evitaria o despovoamento do centro.

Outro arquiteto, Constant, que pertenceu ao grupo dos Situacionistas, publicou seu artigo New Urbanism, na revista Provos número 9, de 1966, com uma dura crítica as cidades modernas:

Já é visível uma crescente discrepância entre os padrões aplicados nas distribuição dos espaços urbanos e as reais necessidades da comunidade. Projetistas e arquitetos ainda tendem a pensar nos mesmos moldes estabelecidos por Le Corbusier em 1933, quando falava das quatro funções da cidade: viver,trabalhar, transitar e lazer. Essa excessiva simplificação reflete mais uma forma de oportunismo do que a capacidade de observação e de apreciação daquilo que as pessoas desejam hoje, resultando em que a cidade está se tornando rapidamente um conceito obsoleto. Numa época em que a automação e outros progressos tecnológicos estão reduzindo a demanda de trabalho manual continua-se programando bairros operários cuja única função é a de dormitórios.

Enquanto o número de automóveis particulares está se multiplicando em um ritmo tão frenético a ponto de torná-los praticamente inúteis para o deslocamento, continua-se subtraindo espaço vital em prol de áreas de estacionamento de automóveis.” 10

As propostas do grupo Provo foram inovadoras para época e, ao que parece, precursoras das primeiras manifestações de cunho ecológico, urbanístico e arquitetônico, em todas elas está presente o questionamento do status quo.  Um dos expoentes do movimento Maio de 68, na França, Cohn Bendit, disse que a atuação do grupo foi importante para a conscientização e formação da opinião pública daquela época:

“ Ainda que os ideiais defendidos pelos provos e kabouters tenham modificado muita coisa no cotidiano dos holandeses contribuido para o surgimento de uma consciência ecológica , feminista, para uma abordagem dos problemas sexuais, para um interesse real pelos problemas de urbanização eles nunca chegaram a ameaçar o sistema político e econômico reinante.” 11

Poucos objetivos foram alcançados pelo grupo Provo, que se dissolveu em 1967. Suas idéias, porém, frutificaram pois trouxeram soluções para problemas reais e concretos, neste ponto elas se diferem das propostas do grupo britânico Archigram. O “Plano Bicicletas Brancas”, por exemplo, foi uma boa idéia que acabou sendo adotada, nos dias atuais, na França.

Os reflexos da contracultura estão presentes nos dias de hoje, quer seja no estilo de vida “alternativo” adotado por muitas pessoas, quer seja nos ideário do ecologismo, na arquitetura denominada “pós-moderna” que questionava o status quo do Estilo Internacional ou ainda na arquitetura “verde” – um novo campo de atuação para arquitetos.

Notas:

1 HARVEY, David Condição pós-moderna: Uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo, Edições Loyola, 1992.p.44.
2 JAMENSON, Frederic.  Pós-modernismo e sociedade de consumo. In A virada Cultural reflexões sobre o pós-moderno, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.p. 20.
3 JAMENSON, Frederic.  Pós-modernismo e sociedade de consumo. In A virada Cultural reflexões sobre o pós-moderno, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.p. 17
4 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade; Tradução Tomaz T.da Silva, Guacira L. Louro – 10 ed. – Rio de Janeiro: DP&A, 2005. (primeira edição 1992), p.41.
5 JENCKS, Charles.Movimentos Modernos em Arquitetura. São Paulo: Martins Fontes, 1985.
6 JAMENSON, Frederic.  Pós-modernismo e sociedade de consumo. In A virada Cultural reflexões sobre o pós-moderno, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.p. 60
7 MONTANER, Josep Maria. Después del movimiento moderno arquitectura de la segunda mitad del siglo XX. Barcelona: Gustavo Gili, 1993, p. 113.
8 FRAMPTON, Kenneth. História Crítica da Arquitetura Moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1997, p.342.
9 GUARNACCIA, MATEO. Provos : Amsterdam e o nascimento da contracultura, trad. de Leila de Souza Mendes:São Paulo: Conrad Editora do Brasil, 2001.
10 Ibidem, p. 15.
11 Ibidem, p. 75.

Deixe uma resposta