Casa C. Lunardelli, 1968

Casa C. Lunardelli, projeto Eduardo Longo, 1968

Casa C. Lunardelli, projeto Eduardo Longo, 1968

Localizada no valorizado loteamento Praia de Pernambuco, no Guarujá, a Casa C. Lunardelli marca um ponto importante na trajetória de Eduardo Longo, arquiteto formado na Fau Mackenzie, em 1966. A Casa foi projetada quando ele regressou de sua viagem “on the road” por diversos países, que incluiu no roteiro o IX Congresso da União Internacional dos Arquitetos, em Praga (pré “Primavera 68”), uma reunião na revista italiana Domus, que resultaria na primeira publicação internacional de seu trabalho, além de Paris (pré “Maio 68”) onde conheceu soldados drop-out – desertores da Guerra do Vietnã.  A concepção do projeto reflete a visão de mundo do jovem, sensível às mudanças culturais e contraculturais daquele emblemático ano de 1968.

Casa C. Lunardelli, planta pavimento térreo.

Casa C. Lunardelli, planta pavimento térreo.

O partido priorizou a vista do mar ao definir implantação e distribuição do programa em dois pavimentos. O agenciamento das funções foi resolvido em três setores distintos: social, íntimo e serviços, seguindo o “morar à francesa”. A solução tradicional foi determinante para a concepção plástica, resolvida com cinco volumes: três troncos de pirâmide, um para cada setor; um cilindro que abriga a caixa d’água e um prisma irregular que interliga todos os demais e conforma o vestíbulo. A Casa foi construída com estrutura de concreto armado.

Casa C. Lunardelli, corte A-A.  Desenho Edite Galote Carranza

Casa C. Lunardelli, corte A-A.
Desenho Edite Galote Carranza

As colunas são embutidas nas alvenarias. As lajes maciças e aparentes, de 15 cm de espessura, possuem inclinações acentuadas; para sua execução foi adotada uma técnica de concretagem em anéis periféricos, que avançam para o topo, como um caracol. A técnica foi desenvolvida por Daniel Ursic, mestre-de-obras iuguslavo e apresentou ótimo desempenho; dispensaram impermeabilização e não apresentaram infiltrações ou quaisquer patologias do concreto por décadas. A concepção plástica singular da casa se aproxima mais das tendências do cenário arquitetônico internacional, da “terceira geração” de arquitetos modernos definida por Montaner, do que da arquitetura paulista brutalista e seu repertório de “caixas portantes”, ênfase na solução estrutural aparente, desejo de industrialização e serialização.

Casa C. Lunardelli, teto da sala de estar.

Casa C. Lunardelli, teto da sala de estar.

Casa C. Lunardelli, escada de madeira auto-portante.

Casa C. Lunardelli, escada de madeira auto-portante.

 

 

 

 

 

 

A Casa foi minuciosamente detalhada, pois o arquiteto sempre se dedicou muito aos desenhos seguindo os ensinamentos de seu mestre Franz Heep. São vários detalhes criativos tais como: a porta de entrada com parafusos transpassantes e vidros azuis; camas suspensas por correntes e ganchos presos à laje; claraboias de vidro temperado para iluminação zenital; além dos sofás, mesinhas e armários vinculados à edificação, com leiaute rígido. Contudo, o detalhe que merece maior atenção é a escada helicoidal, que além de ser um elemento de acesso direto e discreto entre suíte principal e porta de entrada, é uma verdadeira escultura. A escada foi construída com peças de madeira torneadas, que ao serem sobrepostas formam um degrau completo: piso e espelho. Os degraus, que giram em torno do eixo central, são unidos por cavilhas e parafusos uns aos outros, resultando numa escada-escultura, autoportante e que dispensou o necessário corrimão. O detalhe é representativo da postura do arquiteto pautada na liberdade de expressão e subjetividade artística, em todas as escalas, pois segue o lema daquela Geração AI-5: “É proibido proibir”.

Ficha técnica:

Casa C. Lunardeli, Loteamento Praia de Pernambuco, Guarujá, SP, 1968.

Projeto: Arq. Eduardo Longo

Construção: Daniel Ursic

Referências:

AZENHA, Maurício Dias. Arquitetura moderna na praia: residências na praia de Pernambuco. Dissertação de mestrado, Instituto Presbiteriano Mackenzie, São Paulo, 2003.

BASTOS, Maria Alice J.; ZEIN, Ruth V. Brasil: Arquiteturas após 1950. São Paulo: Perspectiva, 2010.

CARRANZA, Edite Galote R. Documento Eduardo Longo: arquitetura e contracultura, Revista AU, São Paulo, v.112, p.53-58, jul., 2003.

_______________________. Eduardo Longo na arquitetura moderna paulista: 1961-2001. Dissertação de Mestrado em arquitetura, Instituto Presbiteriano Mackenzie, São Paulo, 2004.

______________________. Arquitetura Alternativa: 1956-1979. Tese de doutorado, FAUUSP, São Paulo, 2013.

DUNN, Cristopher. Brutalidade jardim: a tropicália e o surgimento da contracultura brasileira. São Paulo: Editora UNESP, 2009.

MONTANER, Josep Maria. Depois do movimento moderno: arquitetura da segunda metade do século XX. Barcelona: Ed.Gustavo Gilli, 2009.

MARTINS, Luciano. A “geração AI-5 e Maio de 68: duas manifestações intransitivas. Rio de Janeiro: Argumento, 2004.

NAPOLITANO, Marcos. Cultura brasileira utopia e massificação (1950-1980). São Paulo: 3ª. ed., Contexto, 2008.

XAVIER, A.; CORONA, E.; LEMOS, C. Arquietura Moderna Paulistana: São Paulo, Pini, 1983.

ZEIN, Ruth Verde. Arquitetura da Escola Paulista Brutalista 1953-1973. Tese Doutorado em Arquitetura – UFRGS, Rio Grande do Sul, 2005.

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