REVISITANDO O JARDIM EDITH

Jd Edith 01

Ponte Octávio Frias de Oliveira (Ponte Estaiada) e Torre 1 do Jardim Edith. Foto: Aécio Lacerda

Aécio Flávio Lacerda e Edite Galote Carranza

O conjunto residencial Jardim Edith é o resultado de um longo processo de urbanização da favela Edith, localizado em um dos endereços mais valorizados da cidade de São Paulo: o bairro do Brooklin Novo. O residencial é composto por três torres e duas lâminas horizontais, compõe a paisagem predominante da região e se mimetiza perante os edifícios corporativos à margem direita do Rio Pinheiros. O projeto de 25.700m², implantado num terreno de aproximadamente 19.000m², tornou-se uma referência de habitação de interesse social, sendo laureado com o prêmio “O Melhor da Arquitetura” em 2013, concedido pela revista Arquitetura & Construção. Talvez quem atravesse o rio pela Ponte Estaiada e visualize as torres, não as identifique como Habitação de Interesse Social, dada a solução arquitetônica pouco usual.

 A região concentra muitas empresas nacionais e multinacionais do setor terciário, instaladas em grandes edifícios de alto padrão e tecnologia. A paisagem urbana construída nessa região, acabou por integrar o projeto de habitação social que se destaca pela qualidade arquitetônica, contribuindo na produção da cidade e seus usos mistos.
Jd Edith 02

Entrada da Torre 1 Foto: Aécio Lacerda

A visita foi realizada em Junho/2015 e Janeiro/2016, teve como percurso o perímetro com início na Avenida Berrini, Rua Charles Coloumb, Rua Araçaíba e Avenida Roberto Marinho, com a implantação do conjunto em dois lotes, a Rua George Ohm deu continuidade ao seu traçado até a Roberto Marinho. A intenção foi realizar uma leitura do projeto, trazendo a percepção e análise do que foi visto no local.

 

Jd Edith 03

Entrada da Lâmina 1 – Edith 02. Foto: Aécio Lacerda

 

O projeto realizado pelos escritórios de arquitetura MMBB e H+F, foi desenvolvido com o programa solicitado pela comunidade junto a SEHAB (Secretaria de Habitação), onde além das habitações, foram solicitados a construção de três equipamentos públicos, sendo construída uma Unidade Básica de Saúde (UBS), uma creche e um restaurante-escola. Todo o conjunto foi implantado numa área de aproximadamente 19.000 metros quadrados, no mesmo lugar onde existia a antiga favela.

Edith 04

Entrada da Torre 2 – Edith 03. Foto: Aécio Lacerda

O projeto do Jardim Edith traz em seu programa habitacional a seguinte composição:

1)      Três torres com 17 andares. No térreo encontramos a entrada principal (direto com a rua), o acesso aos dois elevadores e a escada de emergência, um espaço usado como bicicletário (adaptado pelos moradores). No primeiro andar localiza-se um espaço multiuso. Os outros 15 andares, possuem quatro unidades habitacionais por andar, sendo 60 por torre, totalizando 180 apartamentos;

2)      Duas lâminas com 4 andares. Na primeira lâmina, o acesso principal é direto com a rua, uma escada leva os moradores ao térreo elevado, onde está a área comum e de lazer, a distribuição e acesso as moradias é realizada por outras cinco escadas que permite o acesso a oito unidades. Cada andar possui dois apartamentos e no último a quatro duplex, totalizando 40 unidades. Na segunda lâmina, o acesso é feito por um pátio comum e de lazer, na circulação elevada, quatro escadas dão acesso a oito apartamentos, dois em cada andar e no último a quatro duplex, totalizando 32 unidades;

3)      Três equipamentos públicos, que estão localizados na base do projeto e acesso direto pelos usuários, a implantação segue a seguinte ordem: restaurante-escola, unidade básica de saúde e creche.

Jd. Edith 05

Entrada da Torre 3 – Edith 04. Foto: Aécio Lacerda

Todo o programa foi implantado em dois lotes, no primeiro estão as torres: Edith 01 e 03, a lâmina: Edith 02, o restaurante-escola e a UBS, no segundo lote está a torre: Edith 04, a lâmina: Edith 05, e a creche.

Jd. Edith 06

Entrada da Lâmina 2 – Edith 05 e vagas para carros. Foto: Aécio Lacerda

A sobreposição dos usos foi uma das soluções projetuais que os arquitetos tiveram para atender todo o programa na área reservada para o conjunto. A individualidade dos usos e fluxos foram preservadas, todas as entradas possuem o acesso principal independente.

 

Jd. Edith 06

Entrada da Lâmina 2 – Edith 05 e vagas para carros. Foto: Aécio Lacerda

Com os equipamentos públicos localizados no térreo, foi possível transformar a laje dos mesmos em área comum e de lazer, que faz a conexão dos três conjuntos do primeiro lote. No segundo lote, a sobreposição serve de teto para a creche, a área comum e de lazer tem características diferentes e estão localizadas no térreo, onde a manutenção da área verde fica na responsabilidade dos moradores.

Jd. Edith 07

Vagas para automóveis demarcada por moradores. Foto: Aécio Lacerda

 

 Ao caminhar pela larga e generosa calçada do conjunto, existe um recuo com algumas vagas para estacionar, o que não impede a passagem e nem a acessibilidade do pedestre, que mantem o fluxo das pessoas que transitam para ir a UBS ou creche. A movimentação na rua Charles Coloumb, permite o controle visual do local, tornando o espaço público mais seguro. O mesmo não acontece na avenida Roberto Marinho que apresenta uma característica inóspita, árida, deserta. A provável resposta para essa diferença, talvez seja a escala das vias, onde uma foi produzida para o automóvel e a outra para as pessoas.

Jd. Edith 08

Rua George Coloumb, vagas utilizadas por moradores e população. Foto: Aécio Lacerda

 A UBS tem em seu acesso principal uma farmácia, na sequencia vem o atendimento e triagem da especialidade, no centro do salão fica o local de espera dos pacientes, nesse espaço existem três claraboias que permitem a entrada da luz do natural, assim como as laterais são construídas por elementos vazados que permite a ventilação do local, as salas de atendimento estão nas laterais do ambiente e ao fundo, uma sala multiuso usada para reuniões e cursos com a comunidade.

Jd. Edith 09

Conjunto Habitacional Jardim Edith, via de acesso à Avenida Berrini e Ponte Estaiada. Foto: Aécio Lacerda

O equipamento é bastante utilizado pelos moradores do Jardim Edith, como pela população da vizinhança, o que confere uma qualidade na integração e convivência das pessoas. A creche foi implantada em frente à Praça Arlindo Rossi, o que traz mais qualidade visual e integração com a natureza, sendo possível a realização de algumas atividades com as crianças no local, os mesmos elementos vazados foram utilizados como solução para iluminação e ventilação natural, no térreo tem as salas de creche, refeitório, sanitários, secretária, parquinho. O restaurante-escola é o único equipamento que ainda não está em atividade.

Jd. Edith 10

Volumes na cor azul são os equipamentos públicos – primeiro plano o restaurante-escola, em segundo a UBS. Foto: Aécio Lacerda

 

As diferentes alturas do Jardim Edith fez com que a sua inserção permitisse a integração com os edifícios vizinhos. A solução entre torres e lâminas, além de manter um distanciamento visual confortável, proporciona vistas interessantes nas quatro fachadas dando mais qualidade ao projeto. Ao contrário do que normalmente acontece com a produção em série de várias torres, ou blocos, ou lâminas, sem pensar no contexto da região, podendo causar a segregação.

 

Jd. Edith 11

Entrada da Creche Jardim Edith. Foto: Aécio Lacerda

Numa rápida análise, o projeto buscou o conceito nas formas simples, nos materiais usados, nos elementos vazados, nas soluções arquitetônicas, o tratamento das fachadas foi um fator importante que trouxe movimento ao projeto, com a inserção dos volumes externos que sobressaem as três faces, os gradis que imprimem um grafismo interessante e quebra a monotonia aliando técnica e estética, esses resultados torna o conjunto habitacional numa referência que contribui na composição da paisagem urbana.

Jd. Edith 12

Vista dos elementos vazados utilizados na creche. Foto: Aécio Lacerda

 

Jd. Edith 13

Fachada com gradis e vedação, produz movimento e permite a iluminação e ventilação. Foto: Aécio Lacerda

Esse projeto tem um significado diferente, que representa a renovação dos pensamentos antigos, que insere a população de baixa renda na cidade formal, talvez seja o início de uma mudança sobre o pensar a nova cidade.

 Autores

Aécio Flávio de Souza Lacerda Júnior: Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade São Judas Tadeu (Dez/2016). Docente na Universidade Nove de Julho, ministrando aulas na Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Pós-Graduado em Acessibilidade (2011) e Graduado em Arquitetura e Urbanismo (2008), ambos pela Universidade Nove de Julho. Graduado em Administração de Empresas (1999), pela Universidade São Judas Tadeu. Membro do Grupo de Pesquisa CNPQ “Arquitetura: abordagens alternativas e transdisciplinares”.

Edite Galote Carranza: Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo na área de concentração História e Fundamentos da Arquitetura e Urbanismo, (2013), com a tese Arquitetura Alternativa: 1956-1979". É sócia diretora da G&C Arquitectônica Ltda desde 1998 e editora da Revista eletrônica 5% arquitetura+arte ISSN 1808-1142, desde 2005. Professora do programa de mestrado em Arquitetura e Urbanismo USJT; Líder do Grupo de Pesquisa CNPQ – Arquitetura: abordagens alternativas e transdisciplinares

 

Referência:

LACERDA JÚNIOR, Aécio Flávio de Souza; CARRANZA, Edite Galote Rodrigues (Orientadora). Habitação de Interesse Social: Jardim Edith da favela ao conjunto residencial. São Paulo, 2016. 153 f. Dissertação (arquitetura e urbanismo) – Universidade São Judas Tadeu, São Paulo, 2016.

 

Os comentários estão encerrados.