Teatro Oficina: ruína e transformação

IMG_1508

Bigorna de Vulcano: simbolo de transformação do Teatro Oficina. Foto Ricardo Carranza.

Pensar no Teatro Oficina é confrontar-se com seu duplo significado histórico de permanência e transformação. Em O mal estar na civilização, Freud nos fala da dificuldade de representarmos visualmente o mundo da psique. Então adota como exemplo a evolução da Roma antiga, relembrando as sucessivas implantações, desde a Roma quadrata ao muro de Aureliano. Com isso pretende demonstrar algo aparentemente óbvio, ou seja, nas suas palavras – que um mesmo espaço não admite ser preenchido duas vezes; e que na psique, ao contrário, o primitivo e sua transformação convivem simultaneamente. É um ensinamento da história que o passado avança no tempo na forma de ruínas e vestígios. Roma é um exemplo universal da teoria. E o que vale para a Cidade Eterna, enquanto macro escala, vale para o Teatro Oficina, enquanto micro escala. Das sucessivas construções, demolições e incêndio, as paredes-limite de tijolos de barro à vista, da década de 1920, lastreadas de arcos romanos, se constituem na permanência sobre a qual se apoia o projeto democraticamente conduzido por Lina Bo Bardi e Edson Elito, com reuniões à Rua Jaceguay e Casa de Vidro.

TEATRO OFICINA RUA PALCO

O conceito de Rua-Palco constitui-se de plateia elevada como balcões sobrepostos com piso de madeira e estrutura e guarda-corpos de tubos de aço desmontáveis. foto Nelson Kon.

O conceito de rua-palco lançado, num vislumbre de José Celso Martinez Corrêa,e a decisão de Edson Elito pela demolição de toda a construção remanescente intramuros, Lina Bo fez o croqui da plateia elevada, como balcões sobrepostos, piso de madeira, estrutura e guarda-corpo de tubos de aço desmontáveis.

Edson Elito e Roberto Rochlitz então projetaram uma estrutura mista de concreto e aço, que atenderia a várias funções: contrafortes de concreto armado, com blocos de coroamento à vista, interligados em subsolo, responderiam pela estabilidade das paredes-limite; estrutura de aço laminado composta de perfis H e tubulares de perfis soldados, com fundação independente, responderia tanto pela estabilidade das paredes-limite, através de conectores soldados aos perfis de aço e chumbados ou aparafusados às cintas de concreto das mesmas paredes-limite, quanto à estabilidade da estrutura de aço desmontável dos balcões, mediante transpasse dos tubos através do vão entre duplas vigas de aço periféricas, bem como às cargas de coberturas e mezaninos.Todas as instalações elétricas e hidráulicas, bem como o urdimento, foram mantidos aparentes.

 

teatro 2

A cobertura retrátil é composta de telhas de aço tipo sanduíche e domos de acrílico sobre arcos treliçados contraventados e atinge pé-direito de 13.00m. À iluminação zenital soma-se a iluminação natural de vidro temperado na face noroeste da rua-palco.

COBERTURA RETRÁTIL

Teto retrátil da cobertura e paredes de tijolos de barro à vista que remontam à construção original de 1920. foto Nelson Kon.

                   Do ponto de vista da concepção teatral, o Teatro Oficina elimina quaisquer barreiras, físicas ou imaginárias, entre atores e público, conceito central do Te-Ato de Zé Celso, e que o diferencia radicalmente do teatro clássico, cinema e televisão, meios que definem um espectador passivo. No nível térreo, projetou-se a rua-palco, com trecho em desnível de 3.00m, paralela aos balcões da plateia, com porão e alçapão para percurso de atores. A rua-palco, associada à plateia-balcão, caracterizam um espetáculo em movimento, como no carnaval de rua das cidades mais tradicionais do interior onde o desfile pode ser visto das janelas e terraços ou das calçadas na rua.

Balcões

Vista superior dos balcões. foto Nelson Kon.

        Em síntese, a materialidade do Teatro Oficina, representada por seu duplo caráter histórico de ruína – cuja ocupação só pode ocorrer uma única vez no mesmo espaço e tempo, e de transformação – que por seu caráter imaterial, pertence ao imaginário,pode abrigar, simultaneamente, diferentes camadas de tempo.

 

IMG_1521

Arcos em tijolo de barro da construção original de 1920. foto Ricardo Carranza.

 

 

 

 

 

 

FICHA TÉCNICA

Teatro Oficina Local: Rua Jaceguay, 520 – Bixiga – São Paulo/SP
Data do projeto: 1984/1990
Data de conclusão da obra: 1994
Área do terreno: 450,00m²
Área construída: 699,29m²

EQUIPE DE PROJETO

Projeto de Arquitetura
Arquitetos: Lina Bo Bardi e Edson Elito.
Colaboradores: Roberto Tobo; Adilson Viviani; Luiz Soares; Rubens; Heloisa; Simone; Claudio; Laercio; Vicente; Isabella.
Concepção Cênica:
Teatrólogo: José Celso Martinez Correa. 

PROJETOS COMPLEMENTARES

Cenotecnia:
Arquiteto e Cenógrafo J.C. Serroni.
Estrutura:
Engenheiro Roberto Rochlitz
Engenheiro Isaías Abdalla
Instalações Eletroeletrônicas: Rheno
Instalações Hidráulicas:
Engenheiro Roberto Tanaka
Acústica e Sonorização:
Professor Conrado Silva de Marco
Circuito de TV:
Antonio de Salles Teixeira Neto
Conforto Ambiental:
Física Marcia Peinado Alucci
Quantificação: Engenheiro Oswaldo Sato
Apoio Logístico: Arquitema – Arquitetos Associados
Gerenciamento: Ass. Obras da Secretaria de Estado da Cultura – Arq. Silvio Guimarães; CPOS – Companhia Paulista de Obras e Serviços
Construção: Construtora Vilanova

Bibliografia

BARDI, Lina Bo. Teatro Oficina 1980-1984. Lisboa: Editorial Blau; Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, 1999.

CARRANZA, Edite Galote. Arquitetura alternativa:1956-1979. Tese de Doutorado em Arquitetura – FAUUSP, São Paulo, 2012.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

MACUL, Márcia. Teatro Oficina. Revista AU, vol 58, fev. mar. 1995, p. 52-54.

AUTORES:

Edite Galote Carranza é mestre pelo Instituto Presbiteriano Mackenzie em 2004, doutora pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2013 com a tese “Arquitetura Alternativa: 1956-1979”; diretora da editora G&C Arquitectônica e da revista eletrônica 5% arquitetura+arte ISSN 1808-1142; professora da graduação e pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

Ricardo Carranza é mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP em 2000, diretor da editora G&C Arquitectônica, escritor e professor da Universidade Paulista, professor co-autor do programa de pós-graduação da Universidade São Judas Tadeu.

Os comentários estão encerrados.